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-Início»Rubricas»Histórias com H: Santi Cazorla
Fotografia | La Liga

Histórias com H: Santi Cazorla

Pedro Andrade 14 Mar 2019 Rubricas, Rubricas

Histórias com H é uma rubrica onde relatamos as mais belas histórias do desporto mundial. O relato desta semana é sobre um exemplo de perseverança e muita dedicação. Senhoras e senhores, Santi Cazorla merece este espaço.

Os mais de dois anos que separam o seu último jogo com a camisola do Arsenal e o seu regresso com a camisola do Villareal, carregam uma história de luta e de superação. A batalha contra uma lesão que lhe poderia ter tirado tudo. Desde a primeira lesão no calcanhar até à infecção bacteriana que se seguiu, do prognóstico brutal que envolvia o facto de nunca mais poder jogar profissionalmente, até aos primeiros toques na bola e, finalmente, o seu regresso aos relvados, tanto tempo depois…

Depois de um “Inferno na terra” para Santi Cazorla, o céu finalmente abriu-se para o veterano centrocampista espanhol. O clube que o formou para o mundo foi o mesmo que acreditou nele e o ressuscitou para o futebol. Agora, e com vários jogos sob o símbolo do “Submarino Amarelo”, o “pequeno mágico” volta a encher de magia os campos pela Europa fora – talvez não com o mesmo fulgor de antes, mas sim com uma felicidade futebolística que exalta das suas botas para a eterna “redondinha”. O minuto 67, no jogo do Villareal contra o Hércules, marcou o regresso da felicidade para Cazorla. Foram quase dois anos de paragem, mas mais do que o parar de jogar, foram meses de uma agonia extrema, e que pareciam nunca mais ter fim.

Quando digo veterano, digo-o pela experiência e não pela idade. Muitos jogadores com a idade do internacional espanhol não possuem o cardápio futebolístico que Cazorla tem: desde os primeiros anos da sua carreira em Espanha, onde brilhou no Villareal, no Recreativo de Huelva e, principalmente, no Málaga, até à marcante passagem por Londres, onde conquistou o título de lenda para os “supporters” do mítico gigante inglês, o Arsenal. Foi em Inglaterra que o maestro produziu as mais brilhantes atuações, aquecendo as bancadas então frias do Emirates – fruto de um inverno rigoroso pelo qual o clube inglês passa desde o último grande título. Se é então verdade que pouco conquistou (em termos de títulos colectivos) enquanto jogava pelo clube de norte de Londres, não deixa nunca de ser factual que os títulos não definem a qualidade de um futebolista. E a sua qualidade nunca foi questionável.

Apesar de, na altura da malograda lesão, estar ainda a serviço dos “Gunners”, não foi a jogar por eles que o inferno teve o seu começo. Para tal, é necessário recuar para o preciso momento em que o primeiro sintoma apareceu. A lesão, como contada pelo internacional espanhol ao jornal Marca, é descrita com um começo específico: dia 10 de Setembro de 2013, num jogo particular entre a Espanha e o Chile. Nesse dia começa o calvário de Santi Cazorla.
A partir desse jogo, há cerca de oito anos, o jogador recorreu a tratamentos de todos os tipos. Primeiro porque o espanhol passava por uma boa fase em termos de carreira futebolística, e uma paragem nesse momento seria desastroso. Segundo, e pegando nas afirmações do mesmo, não vislumbrava as consequências das suas acções. Nunca pensou que a lesão no tornozelo direito pudesse piorar de forma brutal. Nem ele, nem os médicos do Arsenal.

Não parou. Continuou a jogar, até que a lesão se transformou no monstro que roubaria dois anos da sua vida e lhe entregaria um peso enorme para os braços.

Passados mais de três anos desde a infame lesão no amigável (ai, os amigáveis…), o Arsenal jogava para a Liga dos Campeões, contra o Ludogorets. Da partida podemos tirar o resultado: seis golos para os britânicos, frente ao nulo dos búlgaros. Mas se há algo que marca a data, pelo menos para Santi, é o chegar ao limite. A lesão, que se manteve durante três anos num moinho crescente – e que se tornava cada vez mais insuportável para o atleta -, tinha deixado Santi num estado deplorável, fisicamente e psicologicamente. Saiu mais cedo do encontro, e a partir dessa partida, a vida do espanhol piorou.
Uma operação seguiu-se. As duas semanas previstas para o tratamento e recuperação subiram para dois anos. Dois anos de lágrimas e depressão, mas também dois anos de força de vontade e de espírito de luta.
Contudo, uma bactéria piorou o diagnóstico. Santi lutaria agora contra um futuro nada feliz. Fora-lhe descoberta uma bactéria, que durante imenso tempo lhe andava a consumir o tendão. Tinha perdido cerca de 10 centímetros do tendão. “Em Inglaterra, disseram que já poderia dar-me por satisfeito se conseguisse voltar a passear com o meu filho no jardim”, admitiu o jogador, numa das afirmações mais pesadas das suas recentes entrevistas. A verdade é que não desistiu, e se os médicos britânicos lhe deram um diagnóstico brutal, os especialistas espanhóis encontraram humanidade no mesmo diagnóstico médico e prometeram lutar ao seu lado para efectuar uma recuperação lenta, mas progressiva. Foram oito operações, algumas para encontrar a bactéria, outras para descobrir o tendão afectado e a consequente gravidade, e por último, para reconstruírem o tendão, usando tecido de outras partes do seu corpo.
O que ficou foi uma mescla de várias partes do seu corpo, mas finalmente poder-se-ia aspirar a outros objectivos. Segundo Arséne Wenger, a lesão do seu jogador, até então, era a pior que já tinha visto. Mas isso pouco importava para Cazorla, que queria era voltar aos relvados.

A recuperação mostrou-se lenta. Na verdade, pouco mais se poderia prever. Não haveriam certezas se Santi poderia alguma vez voltar a entrar dentro de um campo de futebol, pelo menos como jogador. Mas foi aí, no meio das incertezas, que o clube que o fez craque com a bola nos pés, o resgatou e o libertou novamente para a felicidade. O Villareal pegou nas incertezas e prometeu apoiar Santi, com tudo o que precisava.

Deu-lhe um objectivo: voltar a vestir a amarelinha do “Submarino Amarelo”. E com luta, sacrifício, através do apoio dos fisioterapeutas, dos especialistas, da sua família, da sua força de vontade e da felicidade, que os pequenos momentos a sós com a bola proporcionava, Santi recuperou.
Milagrosamente, é verdade. Mas Cazorla não deve nada a Deus. A vitória é dele e daqueles que estiveram com ele até ao dia em que voltou a entrar dentro de campo.
No dia 17 de Julho de 2018, Santiago Cazorla González respirou o oxigénio da relva.
Nesse dia, renasceu para o futebol e para a vida. Não é possível imaginar a felicidade do jogador no momento que entra novamente nos balneários, não é possível nem imaginar o que lhe passava pela cabeça aquando da entrada em jogo, do primeiro toque na bola. Não é… Nem tentem.
Apenas respeitem, e aproveitem todos os vislumbres que conseguirem apanhar durante as transmissões, daquele sorriso. Do sorriso de Santi, sim. Mas também da “redondinha”, porque aí sim, aí vemos a magia.

Esta rubrica é da responsabilidade do projeto “O Desportista” e as opiniões devem ser atribuídas aos autores devidamente identificados. O UALMedia e a UAL não se responsabilizam pelos conteúdos aqui publicados.
2   
2019-03-14
Diogo Carapinha
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