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-Início»Rubricas»Histórias com H: A tragédia do Toro

Histórias com H: A tragédia do Toro

Pedro Andrade 08 Nov 2018 Rubricas, Rubricas

Histórias com H é uma rubrica onde relatamos as mais belas histórias do desporto mundial. O episódio desta semana fala sobre a grande equipa do Torino da década de 40 e a tragédia que tirou a vida a 18 jogadores dessa mesma equipa.

A história de um gigante derrubado pelo infortúnio. A tragédia de Superga tirou a vida a 31 pessoas, 18 desses jogadores que juntos imortalizaram a figura mítica e intocável de uma das formações mais implacáveis da história do futebol mundial.

O Toro, como é carinhosamente denominado, dominava o futebol italiano durante a década de 40. De temporada em temporada, juntava recordes de golos marcados (125 em 47/48), títulos consecutivos alcançados (Pentacampeão em 1949 – o último desses troféus póstumo, atribuído após o desastre que vitimizou a equipa), além de oferecer maior parte dos seus homens à seleção italiana, que dependia quase de forma exclusiva dos seus serviços, e que dominava o panorama mundial, goleando todas as seleções que se opunham ao seu poderio – Portugal foi apenas mais uma das vítimas, goleados por 4-1.

Todos as grandes “squadras” atuais: AS Roma, Inter de Milão, AC Milão, Juventus ou Nápoles. Nenhuma delas fazia frente ao Toro desta altura. Os vizinhos da Vechia Signora ajoelhavam-se perante uma invencível formação, que contava com jogadores de renome mundial e de talento incomparável. De entre os vários destacava-se o capitão e principal estrela, Valentino Mazzola. Mas muitos mais espalhavam o charme e a magia, atributos que marcaram uma época no futebol transalpino. Jogadores como o versátil Rigamonti, o guarda-redes de enormíssima qualidade e segurança, Bacigalupo, ou “Gabe”, alcunha para Gabetto, avançado responsável pela maioria dos golos da equipa e que fomentou para sempre o estatuto de ser um dos maiores goleadores de todos os tempos.

Tudo isto acima, um poderio teórico. A prática, apesar de tudo, não fugia muito a estes princípios. O futebol que praticavam era o caviar dos compêndios da bola. Se em Portugal existem os 15 minutos à Benfica, nesta altura só mudava a entidade clubística, mas ainda assim a semântica mantinha-se, eram os 15 minutos à Filadélfia (estádio). Durante esse período temporal, Oreste Bolmida, trabalhador dos caminhos-de-ferro e adepto fervoroso do Torino, soprava um trompete que trazia consigo para todos os jogos no Filadélfia. Aquando do toque imperial, o capitão das tropas grenás dava início ao ataque avassalador sobre o oponente, que poucas vezes sobrevivia incólume a estes assaltos à sua área. Qualquer um que se atrevesse a discutir «o jogo com o jogo» versus aos italianos sofria, inevitavelmente, estes famosos 15 minutos infernais. Um período marcado pelo futebol total e que inspiraria treinadores, jogadores e adeptos, dezenas e dezenas de anos depois.

Mas, e quando tudo parecia apontar à conquista tranquila do quinto Scudetto consecutivo por parte do Torino, a tragédia assombra a realidade de um conto de fadas. Convidados pelo Sport Lisboa e Benfica para um jogo amigável, em homenagem a Francisco Ferreira, o capitão “encarnado” que tinha anunciado o desejo de terminar a sua carreira, os italianos aceitaram, apesar do calendário não lhes ser favorável, quando ainda tinham 4 jornadas a separá-los do tão desejado pentacampeonato.

No dia 3 de Maio de 1949 os italianos enfrentaram os portugueses. Os capitães e amigos Mazzola e Ferreira enfrentaram-se destemidamente e a vitória sorriu ao emblema da águia num jogo cheio de golos (4-3). Depois do embate, os jogadores de ambas equipas fraternizaram no restaurante Alvalade no Campo Grande.

Umas horas em seguida à partida do aeroporto da portela, os granata fizeram escala no aeroporto de Barcelona, onde o avião que os transportava parou para abastecer. Após a saída de território espanhol e a final aproximação à cidade interior italiana, o contexto temporal começou a piorar. Ainda se estudou a hipótese de a rota ser alterada e a comitiva aterrar em Milão, de forma a tornar a viagem e a aterragem marcada para as 17:00 mais segura, mas a rota manteve-se.

Já em Turim e em descida, as condições climatéricas agravavam-se, o nevoeiro cerrado e a chuva intensa dificultavam a tarefa já difícil do piloto, que apesar de ter uma experiência vasta e ganha em contexto de guerra, não conseguiu virar o destino já marcado daqueles homens. A aeronave embate contra a basílica de Superga, não deixando sobreviventes. Foi o dia em que futebol morreu.

No resto da época futebolística, os juniores ocuparam o cargo dos heróis de Turim. Em respeito, todas das formações da Serie A fazem o mesmo. Nessa mesma época, os Granata sagram-se pentacampeões italianos. Só o voltariam a ser em 1976, um título com um peso emocional enorme.

Nos dias de hoje, o Toro mantém-se grande, mas sem nunca ser o de outros tempos. Um “e se” que assombra um país que vive para o futebol. E se não tivesse acontecido o acidente? Estaríamos perante um Torino que se igualasse com todos os outros colossos europeus?
Talvez.

O “Grande Torino” só desaparecerá quando a sua memória não mais for evocada. Para muitos e também para mim, Mazzola ainda comanda as suas tropas ao som da corneta de Oreste, galgando terreno em direção à baliza adversária na certeza de que a bola chocará com as redes, inevitavelmente.

Esta rubrica é da responsabilidade do projeto “O Desportista” e as opiniões devem ser atribuídas aos autores devidamente identificados. O UALMedia e a UAL não se responsabilizam pelos conteúdos aqui publicados.
3   
2018-11-08
Diogo Carapinha
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