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A importância dos milhões da Europa

Diogo Carapinha 07 Nov 2018 Crónicas, Crónicas

Aos curiosos que estão a ler esta crónica, e que se interessaram pelo título, alerto-vos já: será sobre futebol. Não terá nada a ver com as políticas do Doutor Mário Centeno ou com a injeção de capitais em Portugal. Quer dizer, muito do que aqui vou dizer afeta diretamente a nossa economia, bastante mais do que alguns podem pensar. Sem mais rodeios, vou direto ao assunto: algum de vocês sabe quanto é que um clube português (ou estrangeiro) ganha por 90 minutos numa competição europeia, para ser mais preciso, na Liga dos Campeões?

Demorei alguns segundos até perceber que isto é um monólogo, portanto tenho de prosseguir com a conversa.

Para além do “jackpot” ganho à entrada da fase de grupos (que também é um valor condicionado por uma série de variáveis, mas já lá vamos), 90 minutos de alto rendimento, com um resultado condizente, rende 2 milhões e 700 mil euros. Sim, leram bem. Eu sei que o mundo do futebol tem se tornado algo “estranho”, mas 90 minutos valem, e só para apimentar um pouco mais as coisas, o valor de uma vida vezes três, tendo como base a premissa que cada um de nós viverá 80 anos e que ganhará, numa quantia constante, um valor líquido a rondar os 1000 euros mensais. É isso…

Ora vejamos, sabendo nós da desigualdade e discrepância de capitais entre os vários clubes que preenchem a fase de grupos desta competição, podemos achar que será uma medida para haver uma maior equidade e competitividade. Pois bem, as variáveis que condicionam o valor do “jackpot” perante a entrada na fase de grupos beneficiam os clubes com maior ranking, ou seja, quanto mais bem posicionado, isto é, sem complicações, quanto mais forte é o clube, mais ele ganhará. Quando é a própria UEFA a criar distâncias cada vez maiores entre os clubes e as ligas europeias, está tudo dito. Como é que é possível alcançar o topo do castelo com uma corda de metro e meio (passe a metáfora)?

Os clubes portugueses, em concreto o Benfica e o FC Porto (visto que foi-nos retirada a possibilidade de ingressar outro clube português nesta competição), limitam-se a jogar pelo dinheiro e pelos pontos europeus tão preciosos, para que não cheguemos ao ponto de ver o nosso campeão nacional a jogar contra o sétimo classificado de uma liga inglesa nas pré-eliminatórias desta competição! O título desta crónica, puramente capitalista, vem mesmo daqui. Não há qualquer interesse desportivo subjacente, há que ser realista! Eu encaro a possibilidade do FC Porto ou do SL Benfica chegarem às meias-finais como encaro a probabilidade do Leicester voltar a ser campeão. É possível? É, mas vamos lá ser coerentes e objetivos…

Posto isto, e em estilo de conclusão, apresento uma causa, uma consequência e uma solução de e para este problema. A causa deste problema é algo bastante complexo e que numa crónica posterior posso vir a dar a minha visão sobre tal assunto. Penso que existem inúmeros culpados, inclusive, indiretamente, nós, por tornarmos esta modalidade numa indústria, direi, sem controlo, mas isso fica para um próximo episódio. Relativamente à consequência, acho que é óbvia: o enorme fosso entre os clubes grandes e os clubes de “terceiro mundo”, ou seja, todos aqueles que não têm grandes investidores ou que não estejam em grandes ligas europeias. A solução é “simples” e passa pela criação de uma liga europeia capaz de fazer face a estas desigualdades, e num maior protagonismo de quem gere as ligas, que diga-se passagem, pelo menos no caso português, pouco ou nada têm feito para reverter esta situação.

Esta rubrica é da responsabilidade do projeto “O Desportista” e as opiniões devem ser atribuídas aos autores devidamente identificados. O UALMedia e a UAL não se responsabilizam pelos conteúdos aqui publicados.
5   
2018-11-07
Diogo Carapinha
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