Filho de Mitchell van der Gaag, o avançado da União de Leiria é, aos 26 anos, um dos nomes da promissora “geração de 99” do Benfica. Nesta entrevista, fala sobre as dificuldades que o levaram a deixar o Seixal, a adaptação ao futebol neerlandês, o período conturbado na B-SAD e o ressurgimento no clube leiriense. Numa fase em que afirma viver um dos melhores momentos da carreira, o jogador neerlandês olha para a Segunda Liga e para o futuro com otimismo.
Nasceu nos Países Baixos, mas veio muito jovem para Portugal, quando o seu pai — Mitchell, figura conhecida no futebol português —assinou pelo Marítimo. É aqui que se sente em casa, mesmo tendo representado a seleção neerlandesa nos escalões de formação?
Sim. Nasci na Holanda, mas vim para Portugal, para a ilha da Madeira muito cedo, com apenas dois anos. É aqui que me sinto em casa. Quanto à seleção, não tive escolha porque não tenho nacionalidade portuguesa.
Passou pelos escalões de formação do Benfica de 2010 a 2017 e chegou a ser capitão de jogadores como João Félix, Florentino Luís, entre outros craques. Podia ter tido um percurso semelhante ao destes jogadores no clube da Luz?
A nossa geração de 99 é muito forte. Muitos jogadores chegaram ao topo, como o João Félix, o Florentino, o Jota ou o Gedson. Claro que toda a gente tem o seu percurso. Não tive tanta sorte no Benfica porque houve um ano em que o treinador não apostava tanto em mim e isso acontece no futebol. Quando é assim, tem que se escolher outro caminho. Mas ainda acho que consigo chegar a esses patamares. Tenho 26 anos, sou novo, por isso espero consegui-lo.
Saiu do Benfica ainda como júnior, aos 18 anos, para o Nac Breda, onde chegou à equipa principal liderada pelo seu pai. Qual foi a maior dificuldade que enfrentou?
Nunca é fácil sair de um clube onde fiz formação, um clube como o Benfica, onde temos uma das melhores infraestruturas do mundo. Precisei de uns três, quatro meses para me habituar ao novo clube. Claro que é o meu país, mas nunca lá tinha jogado. Tive que me adaptar ao clube, às pessoas, ao campeonato. Comecei logo a treinar com a equipa A. Foi difícil. Fisicamente é diferente, há muita coisa diferente, mas consegui adaptar-me. Estreei-me pela equipa A e a partir daí foi melhorando, mas não posso dizer que foi fácil.

“Na Primeira Liga neerlandesa os estádios estão sempre cheios. Até mesmo na Segunda Liga”
Qual é a maior diferença entre o futebol neerlandês e o futebol português?
São duas ligas diferentes. Na Holanda, as infra-estruturas são melhores que em Portugal, no geral. Na Primeira Liga neerlandesa os estádios estão sempre cheios. Até mesmo na Segunda Liga. Isso não se vê em Portugal. As equipas lá têm melhores condições, mas em termos de qualidade futebolística é muito semelhante ao futebol português. Por isso, acho que a maior diferença são mesmo os estádios e as condições, mas a qualidade de jogo é muito parecida.
Regressou a Portugal em janeiro de 2020, aos 21 anos de idade, pela mão da já extinta B-SAD, para a equipa de sub 23, mas rapidamente subiu à equipa principal na época 20/21. Como é que foi a adaptação ao patamar mais elevado do futebol nacional?
Assinei pela B-SAD depois do covid. Então tive uns seis, sete meses parado. Não havia jogos, não havia campeonato, não havia nada. Não foi fácil arranjar clube. A B-SAD contactou-me quando o plantel já estava fechado, por isso tive que começar nos Sub-23. Subi rapidamente à primeira equipa. Na altura, o treinador era o Petit, viu alguns dos meus jogos nos Sub-23, gostou e levou-me para a equipa A, onde me estreei na primeira liga e fiz alguns jogos. Mas, no geral, a adaptação foi boa e o Petit ajudou-me muito.

“Foi uma época [2021/2022] muito difícil para todos dentro do clube”
Ficou duas épocas no clube, até 2022, ano em que desceram de divisão e com alguns episódios caricatos, como aquele jogo com o Benfica, em que só compareceram nove jogadores e o jogo terminou no início da segunda parte. Como é que viveu toda a situação dentro do clube?
Foi uma época muito difícil para todos dentro do clube. Nada corria bem. Eu tive algumas lesões, só voltei no final do campeonato. O jogo com o Benfica, um dia antes do jogo, de manhã, fomos todos ao hospital fazer um teste de covid. Já não me lembro bem o que é que aconteceu, mas recordo-me que nenhum jogador da equipa A estava apto. Foi mesmo antes da hora do jogo. Tiveram que ligar a alguns jogadores dos Sub-23, que estavam inscritos, que só eram seis ou sete. Como era muito tarde para cancelar o jogo, tiveram que jogar com os nove jogadores. Um jogador da frente até era o guarda-redes, João Monteiro. Foi muito mau, acho que todos naquele balneário sentiram isso. Claro que é um sonho jogar contra o Benfica, muitos tinham esse sonho, mas não daquela maneira. Foi horrível. Muitos jogadores não queriam jogar. É o que eu me lembro desse dia. Depois, ao longo do campeonato, foi muito complicado, porque não ganhámos muitos jogos. Foi um ano difícil e acabámos por descer de divisão. E foi aí que saí.
No verão desse ano assinou pela União de Leiria, para jogar na Liga 3. Ano que terminou com o título de campeão e consequente subida à Segunda Liga. Qual foi a sensação de alcançar um objetivo que fugia ao clube há vários anos e logo na sua época de estreia?
Depois da B-SAD, passei o verão a pensar no que ia fazer no futuro. Não tinha tido muitos jogos e poucos clubes em Portugal estavam interessados, por isso tinha que pensar bem no que é que ia fazer. O mister Vasco Costa, que estava no Estoril Sub-23, assinou pelo Leiria na Liga 3 e ligou-me logo quando o fez. Queria muito que eu também assinasse. Claro que a Liga 3 não era algo que eu queria na altura, mas acabou por ser a única opção e acho que a maior razão por ter assinado foi o mister Vasco. Quando cheguei à equipa, percebi logo que tínhamos um bom plantel, uma boa equipa técnica, jogávamos bem e percebi logo que era um projeto para subir. A época acabou por correr bem, subimos de divisão, chegámos à final para decidir o título contra o Belenenses e vencemos o jogo. No geral, as coisas nesse ano correram muito melhor do que estava à espera.

“Nesta Segunda Liga é muito difícil dizer quem é que vai subir de divisão”
A União de Leiria encontra-se na sua melhor fase desde que subiu à Segunda Liga, em 2023. Está no quinto lugar da tabela, a quatro pontos do líder. Acredita que este pode ser o ano da subida?
Estamos numa boa fase. Mas nesta Segunda Liga é muito difícil dizer quem é que vai subir. Ainda é muito cedo. A única coisa que eu posso dizer é que temos um bom plantel, temos uma boa equipa técnica. Temos que pensar jogo a jogo, temos vindo a melhorar, estamos a jogar bem, mas é muito difícil dizer nesta Segunda Liga quem é que vai subir de divisão.
Na presente época desportiva, tem-se afirmado cada vez mais como uma das caras da equipa, com 12 jogos, a maioria como titular, dois golos e quatro assistências. Vive o melhor momento da sua carreira?
Sim, estou numa das melhores fases da carreira. No passado tive muitas lesões e este ano, por acaso, tenho-me sentido bem fisicamente, sinto que estou mais preparado. Jogo quase sempre 90 minutos, fisicamente ajuda muito. Os números também estão melhores este ano. Vamos ver se daqui para a frente ainda dá para melhorar, mas acho que sim, estou num bom caminho.
Em janeiro do próximo ano completa 27 anos de idade. Está no auge da sua carreira a nível físico, como afirmou, e termina contrato com a União de Leiria em junho de 2026. Já tem alguma proposta de renovação por parte do clube ou pretende seguir a sua carreira fora da cidade de Leiria?
Sim, este é o meu último ano de contrato. Mas ainda não pensei muito nisso. Neste momento, só quero estar focado no presente. Fazer o maior número de jogos possível, estar bem fisicamente, não haver lesões e fazer muitos jogos, muitos golos. Isso é o mais importante, o que acontecer mais para a frente logo se vê.





